14/07/2011

Literatura medieval e moderna.

     
     Simultaneamente com o esgotamento das letras latinas, mas ainda em latim, surge nova literatura, a do cristianismo incipiente, exuberante de idéias e de entusiasmo. Dois mundos opostos falando a mesma língua. Numa elite letrada sobrevive a herança clássica até o fim do império; mas os apologistas mais ardorosos da nova fé rejeitam-na toda. Assim Tertuliano (150? – 230?), apesar da sua formação retórica, condena no Apologético as mentiras dos poetas e filósofos antigos. Aos poucos, porém, sobrevém uma solução de compromisso, e a cultura latina é posta ao serviço da propaganda religiosa. Não é por acaso que santo Ambrósio adota o título e as divisões do tratado de Cícero sobre “Os Deveres”, para dissertar sobre as obrigações dos sacerdotes. É discutível se, devido a seu caráter teológico e polêmico, se pode aplicar à imensa literatura patrística o conceito de literatura propriamente dita, embora entre os padres da Igreja haja alguns de muito superiores aos epígonos do paganismo, como são Jerônimo, famoso pela tradução latina da Bíblia (a Vulgata), e, sobretudo, santo Agostinho pensador e escritor igualmente excepcional. Suas “Confissões” reproduzem com patética sinceridade as vicissitudes de uma alma em busca da verdade; na “Cidade de Deus”, consola as elites do império, aterradas com o desmoronamento de Roma, apontando-lhes a cidade indestrutível que o cristianismo estava erguendo nos corações.
      É pela poesia que as letras cristãs se ligam inseparavelmente à literatura profana. Iniciada por santo Hilário, santo Ambrósio e o maior poeta cristão, Prudêncio, surgem os hinos da Igreja, nos quais o ritmo antigo (baseado na quantidade de sílabas) passa gradativamente a moderno (dependente da acentuação). É também nos hinos que aparece a ritma, desconhecida dos antigos.
      No começo da Idade Média as invasões bárbaras e perturbações de toda espécie solapam as próprias bases da civilização. Cessa, fora dos mosteiros, toda instrução sistemática; a língua deteriora-se as partes do império, desenvolvendo dialetos que por sua vez transformam em balbuciantes línguas nacionais. São Gregório de tours já escreve num latim semibárbaro, eivado de galicismos, a História eclesiástica dos francos. Prevendo tempos sombrios, Cassiodoro anima os monges do mosteiro de Vivarium a copiar manuscritos antigos: Isidoro de Sevilha procura condensar em suas Etimologias todo o saber da Antiguidade.
     Por séculos o latim clássico, relegado aos mosteiros, não será mais a língua materna de ninguém, apenas o idioma das escolas e dos clérigos. No meio da crescente barbárie, a cultura antiga foge de um abrigo para outro: dos conventos da Irlanda e da Inglaterra à corte carolíngia, de lá aos mosteiros da Alemanha do sul. O lirismo só tem uma expressão natural: o hinário. As piedosas coleções de vidas de santos (sobretudo a Legenda áurea) e os exemplários para uso dos pregadores (como a Disciplina clerical), único refúgio da literatura de ficção, preludiam a novelística moderna. O resto é pura teologia. Emergem da imensa produção a “Imitação de Cristo”, de Tomás a Kempis, e a “Suma teológica, de santo Tomás de Aquino.
     A Renascença, no séc. XIV faz redescobrir o latim clássico. Por oposição ao latim escolástico, recorre-se à tradição ciceroniana. Sem pretender retornar o terreno ocupado pelos idiomas vulgares, essa língua internacional das pessoas cultas, por um fenômeno único, produz, acima e ao lado das literaturas nacionais, uma literatura de valor, cujos cultores se recrutam de todos os países de Europa. Petrarca e Boccaccio, hoje admirados como os pioneiros das letras italianas, são os clássicos desse latim renovado, com Piccolomini, Poggio, Pontano, Sannazzaro, na Itália; Panônio, na Hungria; Celtis, na Alemanha; Secundo, na Holanda; Du Bellay e Muret, na França. O cosmopolitismo europeu da Renascença tem seu representante mais perfeito no holandês Erasmo, precursor de Montesquieu e Voltaire, no Elogio da loucura. Seu amigo More ou Thomas Morus compõe na Inglaterra a “Utopia”, anunciando Swift. Até o fim do séc. XVII haverá bons poetas em latim, como Jean de Santeul.
     Ainda mais tenaz é a permanência do Latim no domínio das ciências. Até meados do séc. XVIII, salvo poucas exceções, veiculará as grandes manifestações do pensamento europeu, sendo a língua das obras de Bacon, Hobbes, Spinoza, Leibniz, Copérnico, Kepler, Newton e Lineu.