05/07/2011

Latim


      Idioma do grupo ítalo-céltico que se tornou, por motivos históricos, a mais importante das línguas indo-européias. Não era senão um dos vários diletos da península Itálica. Praticado a principio por um punhado de homens (talvez salteadores, segundo a tradição corrente na Roma antiga), localizado ao sul da grande nação etrusca, à margem esquerda do rio Tibre, esse linguajar conquistou terreno à medida que os romanos ampliavam seus domínios. Venceu o grego nas colônias italianas do sul, liquidou o etrusco ao norte; exorbitou da Itália, penetrou na Gália e na península Ibérica, estendeu-se as ilhas do Mediterrâneo e ao Norte da África. Só o grego lhe resistiu na Grécia a no Oriente Próximo. 



    Com a decadência, com a invasão dos bárbaros, com a expansão do islamismo, o latim restringiu seu domínio; mas ainda assim perdurou vivaz nas formas simplificadas que se conhecem hoje por língua novilatinas  (ou neolatinas ou românticas). Por fim a renascença deu grande relevo à cultura clássica, exatamente na sua feição latina (já que o grego era então pouco divulgado). O latim entrou novamente a ser decisivo até junto a línguas que (como o inglês e o alemão) não tinham procedência romana. A gramática latina afeiçoou de certo modo as de outras línguas. Hoje se notam traços de latinidade, principalmente vocabular, em todas as línguas, ainda que muitas vezes por intermédio do francês, do castelhano, do português e até do inglês. Gonçalves Viana contou mais de trinta palavras portuguesas no japonês. Os negros da África conhecem inúmeros vocábulos latinos, carreados pelos portugueses, pelos franceses, ou pelos ingleses. O guarani, que se fala no Paraguai, como o asteca, no México, são compromissos com o castelhano.
      
    Pela sua estrutura sintática, e por certas características fonéticas, o latim aproxima-se de velhas línguas orientais, como o tocariano (que se ouviu no Turquestão chinês), o hitita (língua morta da Ásia Menor), o armênio (subsistente nessa mesma região), ou o frígio (que aí já não se fala); aparenta-se também com o celta. Mas não são poucas as inovações gramaticais introduzidas pelo latim no esquema indo-europeu.
O ritmo musical quantitativo, porventura bem conservado no grego, mantém-se na poesia clássica. Entretanto o acento de altura aos poucos cede ao acento de intensidade, e entra a prevalecer no ritmo da frase, de tal sorte que prepara o caminho para a estrutura do verso moderno, não apenas nas línguas romances, mas em muitas outras da Europa.
    
   Foneticamente, o latim pertence ao grupo das línguas CENTUM (pronuncia-se “Kéntum”) em que a explosiva   c   (pronuncia-se “kê”) corresponde a uma fricativa no grupo satem. Mas o fato é que essa pronúncia não se pode manter antes de   e  , ou de    ; e no francês, tampouco antes de   a . As várias consoantes aspiradas do indo-europeu simplificaram-se, e o próprio h bem cedo deixou de pronunciar-se. Como o grego, apresenta diversas consoantes enfáticas (que se chamaram geminadas, porque se escreviam aos pares).
      
   A morfologia, muito menos abundante do que a do grego, ou do sânscrito, revela grandes simplificações. Os oito casos primitivos se reduziram praticamente a cinco (uma vez que o vocativo só excepcionalmente se distingue do nominativo), e no plural a quatro, ou três. Tal simplificação chegou, nas línguas romances, ao caso único. Do número dual só ficaram vestígios para os filólogos. A declinação dos pronomes é distinta da dos nomes. O verbo não tem a voz média, que no grego se distingue em parte da voz passiva. A voz passiva obedecer a uma sistemática perfeita. Não tem o modo optativo, nem os tempos aoristos. Os aspectos se restringem a dois: o infectum, com quatro conjugações, e o perfectum, com uma única. O radical deste é mais longo do que o outro, ou porque se lhe acrescente um incremento, ou porque se lhe duplique uma sílaba, ou porque se lhe alongue uma vogal. Há indícios de outros aspectos, mas a expressão do tempo começa a prevalecer.
    
  A sintaxe latina tem muitas possibilidades e os escritores abusaram disso. É de crer, contudo, que o povo falasse com simplicidade, como fazem as personagens de Plauto. A Vulgata já foi escrita numa linguagem despretensiosa.